O Papel da Mulher no Veganismo


Feminismo e veganismo. O que têm em comum?


Na semana passada, falamos sobre a relação entre a masculinidade e o consumo da carne. Dando continuidade à análise da disparidade entre homens e mulheres no movimento vegano, vamos ao segundo ponto.


Para explicar a relação das mulheres com o veganismo, vamos voltar no tempo e entender o surgimento do sistema social ao qual estamos inseridos, quando ele começou a ser questionado por parte das mulheres e a relação entre mulheres, animais e a natureza.


Estudos indicam que o sistema patriarcal têm suas origens na Grécia antiga e na tradição racionalista. Antes de invasões nômades vindas da Eurásia, o que havia na sociedade indo-europeia era um sistema familiar, caracterizado como matrifocal ou matrilinear, numa era agrária de paz. Riane Eisler destaca como a parceria entre sexos, o cuidado com a beleza, a estética, a arte e a criatividade dominavam naqueles tempos, reafirmando uma ética feminina.


A sanção do patriarcado na Mesopotâmia veio pelo Código Hamurabi, que anulava os direitos das mulheres em várias áreas, além de permitir por lei que maridos pudessem repudiar suas mulheres por esterilidade e infidelidades, além de outras condutas. As punições eram também definidas pelos homens.


Avançando no tempo, chegamos nas décadas de 1960 e 1970. A partir de reformas sociais e políticas que questionavam as bases de sustento da sociedade, se deu o começo do movimento pela busca por soluções sustentáveis por parte de empresas, pessoas e governos. É o início da libertação social de uma perspectiva antropocêntrica, a favor de uma visão global e sistêmica, buscando valores mais integrativos como: cuidado, cooperação e conservação. Valores estes, negligenciados e associados às mulheres. Nesse contexto, surge então o ecofeminismo, movimento que associa a luta pela libertação das mulheres a luta pela libertação da natureza.


O termo, criado por Françoise d`Eaubonne em seu livro Le feminisme ou la Mort (1974), aborda a relação entre ciência, mulher e natureza. O movimento identifica no sistema patriarcal a origem da catástrofe ecológica atual, tendo sido as mulheres, a natureza e os animais associados a reprodução da vida e alvo de dominação e exploração.


A relação do feminismo com o veganismo parte da premissa de que vivemos uma estrutura social que tem por essência a objetificação e abuso de seres vulneráveis. De formas diferentes, mulheres e animais sofrem dentro dessa estrutura. Animais não podem consentir nem manifestar oposição aos maus tratos e exploração de seus corpos. Fêmeas têm sua capacidade reprodutiva controlada e manipulada, sem levar em consideração as sensações e sentimentos, físicos e emocionais (medo, irritabilidade, sofrimento) que passam.


Mulheres em todo o mundo estão familiarizadas com o conceito de abuso. Quantas mulheres são vítimas todos os dias, tendo seus corpos expostos e reduzidos a instrumentos sexuais e sofrendo de diversas formas de violência, sejam físicas, psicológicas ou emocionais?


Naama Harel pontua a relação da alimentação carnista com a dominação masculina sobre as mulheres. Ela argumenta que os homens falam, representam e tratam mulheres como caça e assim, realizam metaforicamente a dominação. O sexo não raramente é denominado de “prazeres da carne”, “luxúrias da carne”, “fome sexual”. Quando um homem quer uma mulher, ele vai a “caça” e se a mulher se “dá” facilmente ela é “presa fácil”.


Será que faz sentido nos alimentarmos de um produto que parte de um mecanismo que explora e violenta os mais vulneráveis, considerando que nós mulheres nos enquadramos neste último grupo citado?


Carol J. Adams, citada em nosso último post, é um dos nomes mais relevantes na discussão do ecofeminismo

O objetivo do movimento feminista é quebrar regras, valores e imposições do patriarcado. Podemos entender o veganismo como uma extensão do feminismo quando compreendemos que a legitimação do consumo de animais é símbolo de dominância e exploração e que nós, mulheres, também estamos sujeitas às mesmas premissas. Entendendo a conexão inerente da mulher com a natureza e o lugar de vulnerabilidade que estamos dentro da sociedade, se torna muito mais fácil compreender porque mulheres sentem mais empatia e compaixão pelos animais e aderem mais facilmente ao veganismo.


Podemos concluir, então, que somos todas vítimas do mesmo sistema. Precisamos nos posicionar para mudar as regras e eliminar as crenças que sustentam a estrutura que domina e abusa. De dentro pra fora, de nós para o mundo, mudando nossos hábitos e ajudando nosso núcleo familiar e amizades a absorverem novos valores e conceitos, nos posicionando sobre o que acreditamos e, acima de tudo, exigindo todos os dias o respeito por nós, pelos animais e pela natureza, podemos romper com as correntes nos prendem ao patriarcado.

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