A Carne e a Falsa Masculinidade

Atualizado: 4 de Jun de 2020

Por que homens ainda são minoria no veganismo?


Nossa reflexão sobre o assunto vem de muito tempo e é impossível não notar o protagonismo feminino em todos os níveis do movimento vegano. Mesmo com crescimento expressivo do veganismo e o aumento no número de adeptos nos últimos anos, fica evidente que a expansão do movimento também traz consigo uma maior disparidade entre o número de veganas e o número de veganos.


Na Vegannezando, pelo menos 80% dos empreendimentos que participam da feira são liderados por mulheres. Nosso público visitante é majoritariamente feminino. As palestras e oficinas são ministradas, em sua maioria, por mulheres, e o próprio projeto foi criado por duas mulheres. Ao analisar nosso público no instagram, a diferença se faz ainda mais alarmante: 83% dos nossos seguidores são mulheres e somente 17% são homens. Em relação ao engajamento das nossas redes, a análise é a mesma.


Fica, então, o questionamento: por que as mulheres são maioria no movimento vegano?


O empreendedorismo feminino é maioria nas feiras da Vegannezando


O primeiro ponto que observamos é a relação entre o consumo da carne e os homens. A sociedade patriarcal na qual estamos inseridas, reafirma posições dentro da estrutura familiar baseadas em gênero, dando à mulher a responsabilidade de “gestora da alimentação”. Geralmente são as mulheres que fazem as compras, cozinham pra todos e se preocupam com a alimentação dos filhos. Porém, essa dinâmica muda quando observamos eventos como churrascos, por exemplo, onde o comum é que um homem lidere o preparo da carne e a churrasqueira.


A relação da masculinidade com o consumo de carne é um reflexo do arquétipo do “caçador”: caça, mata e leva o animal para casa. Papel sempre associado à força, ao poder de dominação do homem sobre a natureza e à função de “provedor”, já que a caça alimentava a família e a comunidade. Obviamente, não temos as mesmas necessidades que as antigas sociedades, mas nosso subconsciente possui lembranças ancestrais da relação dos nossos antepassados com o ato de caçar e se alimentar da caça, associando de forma subjetiva esse último fator ao poder e a dominação.


Carol J. Adams, autora do livro “A Política Sexual da Carne”, pontua que a caça sempre foi um ponto em comum entre os homens de diferentes sociedades. Ainda hoje, homens pagam fortunas para irem a safaris de caça de animais como elefantes e outros em extinção por lazer.



A imagem mostra um anúncio dos anos 40 da sopa de carne da Campbells, que é direcionado aos homens e relaciona a carne à masculinidade. Carne e masculinidade tóxica. A política sexual da carne.
For Men Only - Campbells Beef Soup

Propaganda de sopa de carne dos anos 40 com o slogan "Apenas para Homens"


Em pesquisa em Tel Aviv, Naama Harel (2012), especialista em ecocriticismo e pós-humanismo obteve os seguintes resultados:


- 86% dos estudantes de gênero masculino especificaram a carne como seu prato favorito, contra 33,3% das estudantes de gênero feminino;

- em média, os homens comem carne 4,5 vezes por semana, enquanto as mulheres comem 2 vezes por semana;

- entre os vegetarianos do estudo, 37% são do gênero masculino e 63% do gênero feminino.


Claramente, existe uma relação diferente em relação ao consumo de carne entre gêneros.


Os psicólogos sociais Dr. Matthew Ruby e Dr. Steven Heine em um estudo de 2011 sobre carne, moralidade e masculinidade pontuaram: “A sociedade norte-americana contemporânea encara a carne como o alimento arquetípico do homem, tanto que muitos homens não veem uma refeição sem carne como sendo uma ‘refeição de verdade”. Outra coisa interessante foi sua conclusão de que os vegetarianos são vistos como sendo “mais virtuosos” porém “menos masculinos” que os comedores onívoros.

Salt Bae, o açougueiro turco que virou sensação na internet, joga sal sobre um pedaço de carne servido para três clientes europeus que filmam com seus celulares. Carne e masculinidade tóxica. A política sexual da carne.
Salt Bae, o açougueiro turco que virou sensação na internet

Salt Bae, o açougueiro turco que virou sensação na internet


A legitimação da alimentação a base de produtos de origem animais pelo patriarcado parte de uma premissa básica desse sistema: a “restrição das emoções”, valor ensinado especialmente aos novos homens desde a primeira idade. A limitação e bloqueio dos sentimentos masculinos dificulta o desenvolvimento de sentimentos como empatia e compaixão, além reforçar o distanciamento e preconceito por parte dos homens a qualquer movimento que fuja do padrão hegemônico naturalizado.


Quem fala sobre o assunto é o psicólogo e pesquisador social Dr. Hank Rothgerber, da Bellarmine University. “Se você é vegetariano, as pessoas te encaram como alguém sensível; você deve ser emotivo e sentir empatia com animais, razão por que não os consome. Mas ser masculino é ser estóico, durão, não ceder às emoções e não se identificar com outras pessoas, o que dirá com animais.” Ou seja, o homem vegano sensível representa um afronta a ordem social.


Então, como trazer mais homens para o veganismo?


1. Converse sobre o assunto com os homens próximos a você, de forma didática, sem imposições mas sim, explicações sobre o que é ser vegano e o que significa dentro da sociedade. Comece pela sua casa, seus amigos e familiares próximos;


2. É interessante que outros homens dêem o exemplo, conversando com seus amigos e explicando o por que escolheram esse estilo de vida;


3. Ofereça produtos veganos para que possam prova, quebrando o estigma de que produtos veganos são “produtos naturebas sem gosto”, comentário clássico de quem nunca provou um bom hambúrguer veggie;


4. Apoie homens que pensam em fazer algum tipo de transição, mesmo que seja somente um pequeno passo. Dê orientações, mande receitas, indique onde comprar produtos. O estimule a se manter firme e mostre o quanto ele está fazendo para o mundo mudando um pouquinho só do seu dia-a-dia, para que a pressão contrária, de amigos e familiares (sabemos que acontece), não seja maior.


De pouquinho em pouquinho, vamos fazendo a mudança. Tem mais alguma sugestão? Mande pra gente!


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